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 LIVRO UIRAPURU

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LIVRO UIRAPURU

Era uma vez um menino que vivia de sonhar.
Ele tinha o gene do sonho na alma.
Seu bisavô, Enrico Mylius Dalgas, foi um sonhador: plantou florestas na Dinamarca.
Seu pai, Svend, foi outro sonhador: desenhou a maioria das espécies de aves brasileiras. 
E ele, aos cinco anos de idade, aprendeu a sonhar: assobiava os cantos das aves que viviam no jardim de sua casa.
Seus sonhos sempre tinham floresta no meio.
Ele sonhava com o zumbido do vento, com o tilintar das folhas secas que caiam, com o som das cachoeiras e com a beleza das aves.
Cresceu sonhando com a natureza.
De tanto sonhar, aprendeu que cada floresta tinha sons diferentes, porque tinha ruídos diferentes, porque tinha cantos diferentes porque tinha vida diferente.
Ai resolveu cair na realidade e conhecer todas as florestas brasileiras.
Uma a uma.
Visitou a mata atlântica, os Campos do Sul, a Caatinga, o Cerrado, os Pampas, o Pantanal e a Floresta Amazônica.
Quanto mais se embrenhava nas florestas, mais sonhos ele tinha.
Sonhos que viraram paixão.
Sua alma mudou para os campos e ele se apaixonou de vez pelos pássaros, os habitantes mais alegres e mais charmosos das florestas.
Era uma vez um menino que sonhou a vida inteira e mesmo com seus 86 anos ainda não acordou.
Sonha que os homens façam pelas aves o que fazem por si próprios.
Sonha que as cidades respeitem mais essas joias da natureza, dando-lhes maior proteção, comer e beber.
Sonha, ainda, em viver eternamente apaixonado e que esta paixão escorra das páginas deste novo livro para dentro dos olhos, das mãos e da alma de cada um dos habitantes desta terra abençoada que possui a maior biodiversidade do mundo. Johan Dalgas Frisch deixa na sua história de menino-passarinho muitas mensagens.
A melhor delas: vida sem paixão é vida que se vai como a folha seca de uma árvore que cai. Vida com paixão é vida que se vive intensamente, prazerosamente, e que deixa um rastro de luz, para iluminar eternamente nossas pegadas.
 

Era uma vez um menino que vivia de sonhar e seus sonhos tinham sempre floresta, paixão e o cantar fantástico, doce e melodioso das aves brasileiras.

Nas minhas andanças, conversas e encontros com professores, jornalistas e empresários sinto que a sociedade moderna se distanciou demais dos passarinhos. Nossos avós e bisavós contavam histórias de aves nos jardins e no quintal de casa, nos sítios e fazendas. Mas ao tempo que a população saiu do meio rural para o meio urbano o mundo das aves foi também se afastando terrivelmente de nossas vidas.
No meio rural, a monocultura quebrou o ciclo e de procriação das aves.

Nas cidades, apareceu um outro predador muito visível para nós, mas invisível para as aves: arborização inadequada, torres de celular, janelas e prédios envidraçados.
Como advertência, quero também lembrar alguns pesquisadores e poetas que souberam lutar pelas aves e tiveram nelas a maior inspiração. A começar pelo maestro Antônio Carlos Jobim que estudou música e aves. Tom Jobim conhecia os passarinhos como conhecia as notas musicais: pelo nome e pelos detalhes. Tom fez as mais belas canções porque tinha sensibilidade para as aves. Tanta sensibilidade que Carlos Drummond de Andrade revelou: 

“Tom Jobim, deputado eleito pelos sabiás, canários e curiós para falar, não aos povos da zona Sul do Rio, mas a toda criatura capaz de ouvir e de entender pássaros, trazendo-nos uma interpretação melódica da vida”. 
O pesquisador Charles Darwin em sua autobiografia confessou que, quando criança, odiava a escola e preferia passar seu tempo observando as aves. Revolucionou teorias e explicou a vida na Terra.

Santos Dumont dizia que o melhor das ensolaradas tardes no Brasil era ouvir o cantar de um pássaro.

“Passava meu tempo na varanda a contemplar o céu brasileiro e a admirar a facilidade com que as aves atingiam as alturas”.

O jornalista e escritos norte-americano Richard Louv aponta que uma série de distúrbios comuns entre as crianças – como déficit de atenção e obesidade – estão diretamente ligados à falta de contato com a natureza. “A observação de aves é a mais recomendada prática para reaproximar crianças ao meio ambiente”. Minhas pesquisas comprovam o que diz o cientista Colin Waters. Os maiores inimigos das aves não são seus predadores naturais, mas sim o ser humano. Existe hoje, em relação ás aves, uma série de fatores decorrentes da expansão da civilização, como a destruição dos habitats, poluição das águas, ataques de cães e gatos domésticos, uso de agrotóxicos, provocação de queimadas, torres de celular, usinas eólicas, janelas e vidros transparentes e prédios espelhados.
Trazer as aves de volta é uma missão de mão dupla: além de dar condições para que as aves se alimentem, se sintam seguras e procriem, há que ter também muitos cuidados com a modernidade urbana e rural. Os prédios invisíveis são ai comprometendo a vida das aves, destruindo seus ninhos, dizimando seus bandos e exterminando seus filhotes.
Cultivar a natureza e as aves é plantar harmonia para colher paz e saúde.

 

246 páginas
21,5x16 cm
ISBN: 978-85-85015-10-7

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